segunda-feira, 22 de junho de 2020

Oito dicas para educar com a semanada (3/8)


Antonio Baptista
A grande maioria dos Caboverdeanos nunca teve oportunidade de aprender formalmente a manusear o dinheiro de forma prudente e racional. Geralmente o assunto dinheiro não é conversado na mesa das famílias; grande maioria das crianças e jovens não sabem qual o orçamento familiar e nem participam nas atividades de planeamento e decisões financeiras da família. Muitas famílias acreditam que não se deve dar dinheiro para as crianças. Ninguém gosta de falar sobre o seu salário/rendimento enfim, um ambiente difícil para se aprender a lidar com o dinheiro de forma prudente e inteligente. As crianças Caboverdeanas quando chegam na fase da vida adulta demonstram ser imaturas e imprudentes com os seus gastos (“malcriados” com o dinheiro). Estudo do Banco de Cabo Verde de 2015, sobre a literacia financeira em Cabo Verde alerta que, no geral, o cabo-verdiano tem conhecimento financeiro insuficiente para a tomada de decisão duma forma consciente. Não fazem poupança e tem conhecimento insuficiente sobre a literacia financeira. Temos obrigação de mudar esta realidade e essa mudança deve ser começada em casa porque ninguém mais do que os próprios páis, tem interesse no sucesso dos filhos. A semanada é um instrumento para a educação financeira dos filhos. É um valor monetário que os páis dão ás crianças de forma regular e fixa em termos de valor e periodicidade.
No post anterior falamos sobre a importância da auto-responsabilidade, sobre termos a consciência da nossa realidade financeira e das suas causas endógenas. Ao reconhecermos como sujeitos que têm poder para moldar e determinar uma nova realidade nas nossas vidas precisamos de Autonomia pois, não podemos ficar parados e esperar acontecer. Autonomia é tomar a vida nas próprias mãos, com muita responsabilidade e disciplina para fazer o que necessita ser feito. A pergunta é: Como a semanada pode promover a Autonomia nas crianças para terem consciência das escolhas e das consequências  das suas decisões/escolhas?
Dica 3: Autonomia – Não dê palpites. A criança é que deve decidir quando e quanto gastar. É um valor destinado para satisfazer desejos a critério da criança. É importante deixar que ela cometa erros e assuma que a situação financeira foi determinada pelas suas decisões/escolhas. Se os pais interferirem, ela vai usar essa brecha como justificativa pelo seu fracasso e não vai assumir responsabilidade.
É preferivel que ela cometa erros nas suas decisões enquanto criança do que cometê-las na idade adulta. Quanto mais cedo a criança perceber que ELA decide a sua situação financeira, provavelmente ela não vai ficar a tentar encontrar justificativas para atribuir a culpa a terceiros quando for adulto.
Para aprender a lidar com o dinheiro ela deve começar a manusea-lo desde pequena. Muitos atos de “furto” de moedas em casa pode ser reduzida assim que atribuirmos a semanada. As crianças tem desejos e elas não “têm” consciência moral sobre a consequência dos seus atos na sua busca de satisfazer os seus desejos. Portanto, dar semanada é uma forma de investirmos na autoestima da criança. Este será o tópico do nosso próximo post.
“Na mudança do presente a gente molda o futuro!” Gabriel Pensador


sexta-feira, 19 de junho de 2020

Oito dicas para educar com a semanada (2/8)


Antonio Baptista
A mesada/semanada é o principal instrumento para ajudar as crianças a desenvolverem uma mentalidade saudável em relação ao dinheiro. Éla refere a um montante de dinheiro que as crianças recebem por mês/semana para satisfazer “desejos”. Para terem sucesso na vida as pessoas precisam desenvolver um conjunto de competências que lhes permitem aproveitar as oportunidades que surgem e aumentarem as suas chances de ter uma vida próspera. Uma característica presente nos individuos que tiveram uma vida bem sucedida tem a ver com assumpção da responsabilidade pela vida que tem levado. Certos de que a sua situação financeira é fruto das suas decisões conscientes ou não, ao longo do tempo pois, a vida é feita de escolhas e, quanto melhor capacitados, maiores as chances de evitarem “decisões pobres” em termos do uso do dinheiro.
De acordo com os psicólogos, á medida em que crescemos, passamos por um processo natural de maturidade que nos faz perceber o peso das responsabilidades. Autoresponsabilidade é a capacidade ou competência de assumir a responsabilidade por cada evento bom ou ruim que acontece nas nossas vidas. Entretanto, muitas pessoas costumam fugir de suas atribuições e consequências das suas atitudes, tentando sempre atribuir a culpa a terceiros. Ter Autorresponsabilidade é atribuir unicamente para nós mesmos a responsabilidade sobre aquilo que acontece na nossa vida, seja positivo ou negativo. Se a criança perceber que ela é a unica responsável pela sua situação financeira (por ter gastado toda a semanada), ela pode mudar as suas ações e conseguir um resultado melhor.
A capacidade de assumir a responsabilidade pela sua situação financeira é uma condição necessária para a mudança comportamental e alcançar o sucesso. Temos consciência de que mudar um determinado padrão comportamental não é tarrefa facil e quanto mais cedo as crianças forem incentivadas a assumirem a responsabilidade, estaremos a criar as condições essenciais para que tenham educação financeira. Portanto a nossa segunda dica:

Dica 2. Autoresponsabilidade – Se a semanada terminar antes do prazo, NÃO dê mais dinheiro até á data combinada da próxima semanada. Seja firme porque logo no inicio é frequente a criança gastar toda a semanada e vier logo a pedir mais (é bom gastar dinheiro dos outros!). Também evite dar palpites sobre como ela deve usar a semanada. A decisão deve ser dela e por este motivo fica mais fácil ela perceber que foi ela mesma quem gastou toda a semanada e com isso pode-se despertar o senso de responsabilidade. O uso do dinheiro requer muita responsabilidade e a criança deve perceber que existe LIMITE em satisfazer os desejos (recursos são escassos e existem escolhas – dois principios elementares da economia) e arcar com as consequências das suas escolhas.

Oito dicas para educar com a semanada (1/8)


Antonio Baptista
Já ouviu falar da mesada/semanada? É um montante de dinheiro que as crianças recebem por mês/semana para satisfazer desejos. Que fique claro que é para satisfazer DESEJOS porque as necessidades devem ser da responsabilidade dos pais. O grande desafio que a criança terá na vida adulta será controlar os impulsos em satisfazer os seus “desejos” pois, desejos são ilimitados e sempre insatisfeitos. A maior parte dos problemas financeiros na vida adulta estão associados á busca irresponsável em satisfazer desejos, sem olhar os meios.

A semanada que é ideal para crianças com até 10 anos (fala-se mesada também mas é mais adequada que seja quinzenal), tem regras e exige comprometimento, perseverança e paciência. É um instrumento importante para ensinar a criança a evitar o desperdício de dinheiro, tempo, comida, material escolar, água, talento etc e é, sem dúvida, a melhor estratégia para melhorar a educação financeira da criança e melhorar a inteligência financeira na vida adulta. Quando usada corretamente, a semanada ajuda a criança a desenvolver competências para que possa aproveitar as oportunidades que vão surgir e aumentar as suas chances de sucesso na vida.

A nossa primeira dica é:

Dica 1. Previsibilidade. A data e o montante da semanada deve ser acordada previamente e respeitada com rigor. Portanto, não se comprometa, se não puder cumprir. A semanada não é um prémio, mas sim um instrumento de educação financeira. Não pode estar associada a desempenho escolar e nem aos afazeres domésticos (que é um dever de todos) e, nem pode ser usada também como chantagem ou castigo, porque é incondicional.

A previsibilidade depende da mesada/semanada ter um valor fixo e regular. A regularidade da mesada/semanada vai ajudar a criança a desenvolver uma mentalidade adequada para o planeamento. Ela vai aprender a esperar para realizar os seus sonhos.

Educação financeira esta associada á paciência. Esperar o tempo que as coisas precisam para acontecerem.

Pior do que não dar mesada/semanada é dar de forma errada. O erro esta associado ao facto de o montante, geralmente, ser variável e esporádico, dificultando o planeamento, que é um aspecto importantissimo no processo comportamental e, imprescindível na vida adulta. Portanto, dê um montante FIXO e numa data FIXA!

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Que futuro financeiro para as nossas crianças?


Antonio Baptista
A Africa é um continente com grande potencial porém, a grande maioria dos países deste continente são pobres e a sua população vive com grandes privações. A simples observação sobre a qualidade de vida da população dos paises da Europa nos deixa indignados com tamanha desigualdade em termos do bem-estar das familias entre os dois continentes. Não obstante as várias teorias sobre o porquê da riqueza das Nações, a diferença entre a qualidade de vida e a prosperidade entre os países existe consenso de que o crescimento económico depende do processo de acumulação de capital e este, por sua vez, depende das escolhas na afectação dos recursos por parte da população.  Portanto, a nossa prosperidade depende das nossas escolhas conscientes ou inconscientes sobre onde alocar os nossos recursos. Esta constatação vale tanto para o indivíduo, famílias, empresas e/ou países como um todo.

É neste contexto que escolhemos o dia 16 de Junho, dia internacional da criança Africana, para partilhar um pouco do conhecimento sobre a Educação Financeira, que, sem dúvida, é um instrumento imprescindível para mudarmos o destino sombrio que espera a grande maioria das crianças na Africa.
A nossa colaboração especial em honra á comemoração desta data se resume em um conjunto de posts (8 dicas) sobre o tema “Mesada/Semanada” que tem como objetivo ajudar as famílias a orientarem as crianças por forma a tomarem decisões financeiras mais conscientes e saudáveis e, que não comprometam o seu futuro devido a más decisões. Parte-se do pressuposto de que as pessoas com maiores conhecimentos e habilidades em lidar com os recursos financeiros terão condições efetivas de contribuir para o bem-estar da sua família, o progresso e, a desejada felicidade da Nação que o nosso governo tanto almeja.
Pretendemos contribuir com estas 8 dicas para a formação de uma nova geração de africanos mais conscientes de suas possibilidades e mais capacitadas para tirarem proveito das potencialidades do seu país, das oportunidades que surgem nas suas vidas e para prosperarem através de uma melhor administração dos seus parcos recursos financeiros de maneira consciente e que assumam a responsabilidade pelos fracassos e tenham autonomia para recomeçarem e persistirem na busca pelo sucesso.
Muitas pessoas, por ignorância, não buscam informações sobre como melhorar a sua vida financeira. Existe uma limitada cultura de poupança (para investimento) no continente e mesmo nas escolas, pouco ou nada é ensinado sobre as finanças; demonstramos ser impacientes e imprudentes no uso do dinheiro e os nossos gastos são determinados por fatores tais como a vaidade, a ostentação, o desejo e o impulso; As famílias, quase não falam de dinheiro e nem chegam a elaborar um orçamento familiar.
A educação financeira geralmente é ensinada em casa, pela família. Mas na maioria dos países africanos nem na escola e nem na família se ensina educação financeira pelo que se torna necessário o surgimento de iniciativas para promoção da educação financeira desde a tenra idade.
Pode-se perceber que com este cenário as chances de sucesso das nossas crianças são limitadas e, por isso, o uso inteligente do dinheiro faz parte das condições necessárias para evitarmos as decisões “pobres” e alcançarmos o sucesso.

O que é Educação Financeira?
A educação financeira basicamente tem como objetivo desenvolver a competência em lidar com o dinheiro, criar uma mentalidade adequada e saudável em relação ao dinheiro evitando atitudes precipitadas ou emocionais por instinto e/ou imitação na hora de investir de modo a evitar a ruína da família, sob o aspeto econômico, social e moral. Permite melhorar as habilidades individuais para tomar decisões apropriadas na gestão das suas próprias finanças.
A nossa personalidade financeira é moldada na infância e por este motivo devemos dar grande importância sobre a Educação Financeira no processo de aprendizagem das nossas crianças.
Pois a mesada/semanada é o instrumento ideal para moldarmos o comportamento mais adequado á prosperidade de indivíduos, famílias, empresas, países e, de todo o continente.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

Educação financeira e desenvolvimento económico



“Nada estabelece limites tão rígidos á liberdade quanto a falta de dinheiro”
John Kenneth Galbraith

Actualmente o empreendedorismo tem sido um tema constantemente debatido em vários encontros, palestras e seminários e, já consta em várias propostas de políticas económicas para promover o desenvolvimento económico. Em Cabo Verde, dentro da estratégia do governo de reforçar o sector privado como motor do desenvolvimento esse tema tem merecido grande destaque.

Embora se reconheça a importância da promoção do empreendedorismo no desenvolvimento de países, as estratégias tem-se centrado apenas nos aspectos formais relacionados com abertura de empresas, capacitação técnica, crédito, plano de negócios etc, negligenciando questões mais importantes que se relacionam com os aspectos informais, tais como a cultura, valores, traços da personalidade dos empreendedores, racionalidade económica e financeira etc que, em última instancia, condicionam o sucesso de qualquer empreendimento e limita de forma significativa o desenvolvimento económico do país.

Um dos aspectos informais que condiciona de forma evidente a sobrevivência e o sucesso do empreendedor é a inteligência financeira, algo que não é ensinado no sistema formal de ensino e que a sociedade, de certa forma, tem dado pouca atenção. O assunto “dinheiro” tem sido ignorado em todas as esferas da sociedade e muitos adultos tem demonstrado limitada maturidade para tratar o “dinheiro” com inteligência e estratégia no sentido de tirar melhor proveito do seu bom manuseio. Ainda, o hábito da poupança ainda não faz parte da nossa cultura; demonstramos ser impacientes e imprudentes no uso do dinheiro e os nossos gastos são determinados factores tais como a vaidade, a ostentação, o desejo e o impulso, limitando consideravelmente o desenvolvimento do País.

A educação financeira segundo a OCDE, é o processo mediante o qual os indivíduos e as sociedades melhoram a sua compreensão em relação aos conceitos e produtos financeiros, de maneira que com informação, formação e orientação claras possam desenvolver os valores e as competências necessários para se tornarem mais conscientes das oportunidades e riscos neles envolvidos e, então, poderem fazer escolhas bem informadas, saber onde procurar ajuda, adoptar outras acções que melhorem o seu bem-estar e, assim, tenham a possibilidade de contribuir de modo mais consistente para a formação de indivíduos e sociedades responsáveis, comprometidos com o futuro.

A limitada inteligência financeira dos agentes económicos tem sido um entrave significativo no processo de desenvolvimento do país e frequentemente pode ser observado pela predominância dos aspectos emocionais na escolha entre as alternativas de investimentos; concentração dos investimentos das famílias em bens de consumo duráveis tais como imóveis e automóveis, geralmente importados e financiados com recursos de terceiros (que aumenta o endividamento das famílias e o deficit na Balança Comercial).

Neste contexto, na ausência da literacia financeira, nota-se uma padronização do investimento das famílias á imitação das opções dos vizinhos, sem uma análise prévia e racional, gerando um círculo vicioso de ineficiências perpetuado por uma espécie de externalidade negativa que não condiz com os princípios de “liberdade de escolha” dos indivíduos. Muitas vezes é notório o equívoco cometido no investimento de famílias, empresas e inclusive governos, confundindo passivo com activo isto é, fala-se frequentemente em fazer “investimento” na casa própria ou num automóvel e até infra-estruturas, sendo que na contabilidade patrimonial esses bens são considerados muitas vezes como passivos e nos deixam mais pobres porque aumentam as nossas despesas mensais (com prestações nos bancos, impostos, juros, combustíveis, seguros, reposição de peças, manutenção etc) sem uma correspondente contrapartida em receitas. Portanto, não tem nada de inteligente manter um “activo” que só provoca despesas no fluxo de caixa.

Frequentemente as escolhas das famílias são guiadas por objectivos nobres tais como garantir a segurança familiar, provisão sobre as incertezas do futuro porém, do ponto de vista financeiro são péssimas escolhas porque a família necessita de um fluxo de rendimento constante para ficar segura isto é, a entrada liquida de dinheiro ao longo do mês é que determina a qualidade de vida e bem-estar das famílias e empresas. Como se diz, e é consenso, não importa o quanto de dinheiro ganhou na vida mas sim, o quanto de dinheiro que conseguiu conservar que vai determinar o seu futuro.

O aumento de casos de famílias em situação na qual são incapazes de pagar suas dívidas com o rendimento familiar disponível devido á escolha errada das opções de investimento tem levado á semi-marginalidade de grande parte da classe média, com perdas na capacidade de consumo, perda de qualidade de vida, stress financeiro que traz problemas mentais, emocionais, perda de laços sociais entre outros problemas nos leva a insistir sobre a urgência de se aumentar a inteligência financeira da população. Além de uma condição essencial para alcançar maior prosperidade de famílias, empresas e do país, provavelmente, é também um dos instrumentos mais eficazes no combate á pobreza.

Esse tema sempre foi uma preocupação de vários países (Austrália, França, Canada, Irlanda, Holanda, Malásia, Cingapura, Brasil, Reino Unido, EUA etc) que já incluíram o tema educação financeira nas escolas. Actualmente num cenário de agravamento do endividamento de famílias, empresas e governo em Cabo Verde parece ser inadiável e imprescindível a implementação de um Programa Nacional para a Educação Financeira.

Embora não seja evidente para muitos indivíduos que nós gastamos muito mal o nosso dinheiro, a realidade é que grande maioria do património familiar são classificados como passivos, que na verdade nos deixam com menos liquidez para enfrentar os desafios de curto prazo e ter qualidade de vida.

Tendo em conta que a escolha das opções de afectação dos recursos é moldada pela estrutura dos incentivos que existe na sociedade é urgente analisar uma engenharia de incentivos mais eficiente que possa moldar o comportamento racional dos agentes económicos e permitir maior inteligência financeira.

A efectiva tributação do património é o instrumento que tem a função de moldar o comportamento e a racionalidade das famílias e é, sem dúvida, o mecanismo mais eficiente e sustentável para aumentar a educação financeira e garantir o desenvolvimento do País.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Educação financeira para os empreendedores da economia solidaria


A economia solidaria parece ser uma opção factível para o governo promover o desenvolvimento e permitir maior inclusão socioprodutiva de grande parcela da população. Grande parte dos aspetos formais para o sucesso dos empreendimentos de economia solidaria já estão criadas porém, um dos maiores desafios para o desenvolvimento desta modalidade de organização do sistema económico encontra-se nos aspetos informais tais como a pouca inteligência financeira e pouca inteligência social, que está relacionada com os aspetos de solidariedade, organização social, redes sociais, confiança mútua, entre ajuda, reciprocidade, compromisso cívico entre outros, cujo deficit tem condicionado o sucesso de varias instituições fundamentais (ex: famílias, cooperativas, associações etc).

Um dos aspetos informais que condiciona de forma evidente a sobrevivência e o sucesso é a inteligência financeira dos empreendedores na área da economia solidaria, algo que não é ensinado no sistema formal de ensino e que a sociedade de certa forma tem dado pouca atenção. O assunto “dinheiro” tem sido ignorado em todas as esferas da sociedade e muitos adultos tem demonstrado limitada maturidade para tratar o “dinheiro” com inteligência e estratégia para tirar proveito do seu bom manuseio. Portanto, a pouca educação financeira tem condicionado o sucesso de muitos empreendimentos especialmente nos negócios inseridos na economia solidária (onde muitos empreendedores, ingenuamente, não são exigentes consigo mesmo sobre a melhoria da sua capacitação em lidar com o dinheiro e estratégia organizacional etc).

A educação financeira basicamente tem como objetivo desenvolver a competência em lidar com o dinheiro, evitando atitudes precipitadas ou emocionais na hora de investir. Muitos empreendimentos não conseguem sustentar o sucesso devido á pouca inteligência financeira dos seus promotores. Isto é, vários empreendedores, com pouca educação financeira, não conseguem fazer uma boa gestão do fluxo de caixa e por vezes encontram-se em situações em que não conseguem pagar suas contas e honrar compromissos. Geralmente, a pouca educação financeira não permite que o empreendedor perceba a importância da poupança e do reinvestimento para a sustentabilidade dos negócios e, frequentemente eles não conseguem implementar nem o fundo de maneio, correndo risco de falência.

Muitas vezes a promoção da economia solidaria vem associada a estruturas de microfinanças para apoiar os investimentos. A facilidade no acesso ao crédito não pode ser confundido com relaxamento em termos de compromissos com a gestão criteriosa do dinheiro. É imprescindível que as entidades de financiamento adotem serviços de assistência técnica para promover a educação financeira.
É imprescindível melhorar a compreensão dos conceitos e produtos financeiros, de maneira que, com mais informações, formação e orientação pode-se conhecer melhor as oportunidades e riscos e, poder fazer melhores escolhas e desta forma aumentar as chances de sucesso dos negócios da economia solidaria.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

Educação financeira e a estabilidade do sistema financeiro


Os dados publicados pelo BCV, no seu relatório semestral sobre a estabilidade financeira confirmam o que há muito já era evidente. Grande parte das famílias Caboverdianas “investem” em passivos patrimoniais, o que lhes deixam mais pobres. Infelizmente esse assunto não é facilmente percebido e é geralmente agravado pelo facto de que a sociedade/famílias ao perseguirem o sonho de ter casa própria, decidem mais com base na emoção do que com base na “razão”.

A grande maioria das famílias decidem financiar a casa própria sem ter feito previamente uma poupança, sem fazer o planeamento financeiro familiar e sem se aperceberem das consequências futuras das suas decisões na compra da casa do sonho. Muitas vezes influenciadas pelo marketing bem elaborado das imobiliárias, facilidade do governo com bonificações, assédio dos bancos e, pressionadas pela sociedade de consumo acabam por optar pela compra de um imóvel, muitas vezes acima da real capacidade financeira da família.

Frequentemente, a decisão de comprar uma casa esta associada a motivos nobres tais como garantir algum património para o filho. Este é um dos erros mais frequentes entre as nossas famílias que culturalmente tendem a deixar a casa para os filhos como herança. Embora a nossa história tem demonstrado que a melhor herança que os pais podem deixar aos filhos é a educação e também, garantir aos filhos uma infância e adolescência sem muitas carências para que cresçam saudáveis, sem traumas emocionais, frustrações etc muitas famílias ainda comprometem o futuro dos filhos através de compromissos financeiros de longo prazo. Neste contexto, a decisão da família em comprar a casa própria deve ser precedida de muita ponderação principalmente, se a segurança futura do filho é o motivo para este “investimento”.

Grande parte da população não consegue perceber os detalhes e as consequências das suas opções em relação ao dinheiro. Esquecem que o preço que tem de pagar pela pressa em ter casa e carro são os juros e as carências que os filhos terão de passar ao longo de vários anos em troca da ostentação da casa comprada, muitas vezes, para satisfazer um desejo ou vaidade. Esquecem o fato de que para garantir uma vida tranquila para os filhos deveriam deixar como herança uma poupança ou um património que é um ATIVO que lhe dá rendimentos (como empresas, acções, aplicações financeiras etc) ao invés de um património que é um PASSIVO (como casa, carro etc) que lhe deixa mais pobre.

O nível de endividamento das famílias é uma das maiores ameaças para se garantir a estabilidade financeira no País sendo portanto necessário investir fortemente na educação financeira, como forma de permitir que as famílias tomem melhores decisões na alocação dos escassos recursos.